

Árvore típica do sertão baiano que antigamente servia apenas para fazer sombra no período de estiagem, o umbuzeiro se torna cada vez mais conhecido internacionalmente. Doces e receitas de umbu levam, pela quinta vez, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) ao maior evento de orgânicos do mundo: a Biofach 2012. A feira ocorre em Nuremberg, na Alemanha, entre os dias 15 e 18 de fevereiro.
A participação da Coopercuc tem apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Em 2011, a entidade fechou negócio com uma empresa da Áustria, comercializando 10 mil potes de produtos à base do fruto. Este ano, a expectativa é repetir o feito, ampliar a rede de contatos e aumentar a exportação.
O sucesso da cooperativa reflete a trajetória de coragem de 20 mulheres. Elas preparavam em casa os doces de umbu. De vizinho em vizinho, as vendas foram crescendo e, em 2004, criaram a Coopercuc. Hoje, são cerca de 180 famílias cooperadas.
Potencial feminino
Ao observar o potencial feminino, o agricultor Jussemar Cordeiro da Silva apostou no trabalho. Ele foi um dos fundadores e o primeiro presidente da entidade, e está entre os 30% dos homens que compõem o quadro de integrantes.
“Nossa história começou ainda nos anos 80, mas, de 2003 para cá, tivemos muito avanço. O grande incentivo veio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), coordenado pelo MDA, que nos ajudou a atender melhor às exigências do mercado”, conta Jussemar.
Programa de Aquisição de Alimentos
A meta do PAA é diminuir a insegurança nutricional no país e apoiar a aquisição de alimentos de agricultores familiares, com isenção de licitação, a preços compatíveis aos praticados nos mercados regionais. “Fomos uma das primeiras cooperativas brasileiras a participar do programa. No começo, toda a nossa produção era para o PAA. Hoje comercializamos apenas 50% para o governo. A outra metade abrange mercados diferentes”, comemora o representante da cooperativa.
Esse novo mercado a que Jussemar se refere também inclui outros países. Das 200 toneladas que são produzidas anualmente, 25% são exportadas. Os europeus foram os primeiros a aprovar o fruto do umbuzeiro.
“Começamos a vender para fora quando participamos da Feira Nacional da Agricultura Familiar, que ocorreu em Brasília, em 2004. No evento, promovido pelo MDA, um italiano gostou da geleia de umbu. Ele levou algumas amostras para a Itália, com a intenção de fazer testes. Nossa geleia foi atestada como produto de excelência gastronômica. Depois, uma delegação italiana visitou nossos umbuzeiros. Conversamos também com franceses. A partir daí, conseguimos mais mercado”, conta.
Certificação orgânica
Mesmo sendo o umbu o carro-chefe entre os ingredientes, a cartela da cooperativa inclui também produtos feitos de maracujá, manga e goiaba da Caatinga. Além da certificação orgânica, todos possuem a certificação de “Fair Trade”, um tipo de comércio que visa à proteção do meio ambiente e uma economia social e justa. Em 2012, a cooperativa leva à Biofach produtos das três frutas (doces, geleias, polpas, compotas, dentre outros) e material de divulgação. “A expectativa é a abertura de novos mercados e a conquista de mais clientes”, conclui Jussemar.
A Coopercuc vai ocupar na feira alemã um estande coletivo de 112 m² junto com outras oito entidades brasileiras: o Projeto Organics Brazil/IPD/MDA, espaço do MDA em parceria com o Instituto de Promoção do Desenvolvimento (IPD). “Pela nona vez, estamos levando para a Biofach empreendimentos que vão fechar negócios. As palavras Brasil, agricultura familiar e orgânicos passam a estar cada vez mais associadas e com uma oferta de produtos diferenciados, que leva sociobiodiversidade, produtos regionais, produtos típicos do nosso país. É uma conquista de espaço no mercado internacional, e essa presença continuada mostra que existe capacidade de oferta e que há empreendimentos capazes de ocupar esses espaços lá fora", avalia o diretor do departamento de Geração de Renda e Agregação de Valor da Secretaria da Agricultura Familiar do MDA (SAF/MDA), Arnoldo de Campos.
A Coopercuc e o MDA
Os resultados positivos alcançados pelos agricultores de Canudos, Uauá e Curaçá são atribuídos a diversos fatores: gestão, qualificação e apoio do MDA. Atualmente, cerca de 450 famílias da região têm a renda complementada em 30% com a produção da Coopercuc.
Para Jussemar Cordeiro, o trabalho valoriza o capital humano e dá mais autonomia às mulheres. Ele destaca que o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário é fundamental. “O MDA nos ajuda na capacitação dos agricultores. Além disso, fomos selecionados pelo programa Talentos do Brasil para vender nossos produtos na Copa 2014 e nas Olimpíadas 2016. Outra contribuição do ministério de extrema relevância é a Rede Brasil Rural. Integrar a Rede representa uma oportunidade de facilitar a logística de distribuição da mercadoria, abrindo portas para novos mercados”, ressaltou o agricultor.
Onde encontrar os produtos
Os produtos da cooperativa baiana podem ser encontrados em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Doces, compotas, geleias e polpas também são vendidos pela internet e entregues em todo o Brasil (eventualmente o site fica fora do ar para atualização).
15/2/2012